segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“Alienação parental”: guerra sem vencedores



Marcelo Tas

O fim do casamento gera “traumas de guerra” numa população além do casal: amigos, avós, irmãos, tias... e, principalmente, os filhos, que se veem impelidos a ocupar um dos dois lados de uma batalha da qual eles nunca pediram para entrar!
É trágico. A relação mal resolvida continua assim na hora de acabar. Há uma grande chance dos filhos se tornarem, desgraçadamente, uma arma perversa para manter, mesmo que inconscientemente, as feridas dessa “guerra” sangrando indefinidamente.
“Alienação Parental” é um termo para o conjunto de estratégias de mães ou pais separados para afastar os filhos de seus ex-companheiros. As táticas têm em comum desacreditar e desgastar a figura do genitor “alienado”, cerceando a comunicação ou manipulando fatos. Mais insano do que isso é acreditar na ingenuidade e ignorância dos filhos.
Meu primeiro casamento chegou ao fim depois de quase dez anos. Foi uma decisão difícil, dolorosa e inevitável para ambos. Faz tempo mas ainda lembro com clareza da angústia crescente em como comunicar o fato à nossa filha, na época com 6 anos. Depois de muito confabular, eu e Cláudia, minha ex-companheira, desenhamos uma argumentação e um discurso bonito. Aceitei a árdua incumbência de transmitir a notícia.
Nesta vida, eu já montei em cavalo bravo, caminhei sozinho na floresta amazônica à noite e até saltei de asa-delta... Mas nunca havia sentido tamanho frio no estômago diante de uma tarefa. Depois de alguns adiamentos, tomei coragem e disse:
– Luiza, papai precisa falar uma coisa com você. Ela largou imediatamente o que estava fazendo, pulou sobre mim no sofá e enfiou os olhões dela bem direto nos meus.
– Pode falar.
– Bem... Papai e mamãe se conheceram, se gostaram tanto que nasceu você. Agora, a gente ainda se gosta mas não o suficiente para continuarmos casados. Não é que a gente brigou, mas vamos ter que nos separar...
– Eu já sabia disso. Mas... Por que você não se muda para o apartamento de cima? Ontem, ouvi o zelador dizer que ele está vago!
Foi um choque de sinceridade e afeto que eu precisava para enfrentar aquela nova fase da vida. Nada foi fácil, mas hoje percebo melhor a fundamental importância da transparência desencadeada pela nossa própria filha desde o minuto zero. Ao contrário do que acontece nos casos de “Alienação Parental” – doença que agora é crime no Brasil –, mantivemos os canais de comunicação, inclusive o das más notícias, abertos. Sem fazer do filho peça valiosa de troca.
Vamos combinar: fim de um casamento é um drama de proporções épicas e primitivas. Disputa-se, na maioria das vezes de forma irracional, posições privilegiadas no “campo de batalha” e recursos materiais como numa guerra de verdade.
Os filhos são os que mais armazenam as informações desse drama. Principalmente as não reveladas com a devida transparência. Crianças são lentes de aumento da realidade. Têm radares muito mais poderosos e sofisticados que adultos. O ministério da saúde mental adverte: a “Alienação Parental” é um tiro no coração e outro no pé.
MARCELO TAS é jornalista e comunicador de TV. Tem três filhos: Luiza, 23 anos, Miguel, 10, e Clarice, 6. É âncora do “CQC” e autor do Blog do Tas. Aceita com gratidão críticas e sugestões sobre essa coluna no e-mail: crescer@marcelotas.com.br   


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